5.2021 | Estabelecimentos de Diversão Noturna – novas realidades – 6


De regresso à noite da cidade de Coimbra, publicamos (em vídeo e texto) mais uma entrevista com um responsável de estabelecimentos de diversão noturna nesta cidade, no âmbito do subprojeto Capacitação de Profissionais de Estabelecimentos de Diversão Noturna, procurando obter as suas respostas e opiniões sobre, muito em particular:

– Quais as qualidades da noite da cidade onde operam Antes da pandemia Covid? E quais os problemas mais importantes aí sentidos?

– Em que medida a pandemia Covid afetou e afeta a atividade dos estabelecimentos? Quais as perspetivas para o futuro?

– Que medidas gostariam que fossem tomadas para, numa fase posterior à pandemia Covid, melhorar as condições da vida recreativa noturna da sua cidade?

Foi com João Gouveia, em representação dos espaços Aqui Base Tanto e Azucar – Restaurante Mexicano, que Paulo Anjos, da equipa técnica do projeto NSCCP e responsável pelo subprojeto Capacitação de Profissionais de Estabelecimentos de Diversão Noturna, trocou ideias desta vez.

Leia abaixo a transcrição da entrevista ou assista aqui.


Paulo Anjos – Queres falar um bocadinho sobre ti e sobre o Base Tango e de mais alguma coisa?

João Gouveia – Sim, mas mais do que falar sobre mim, mais sim sobre os mercados, nomeadamente na produção de eventos, na restauração e depois na parte de Bar e Discoteca, nomeadamente do Base Tango.

Bares e Discotecas foram os primeiros sectores a serem encerrados pelo Governo e os últimos a abrir, sendo que a parte da discoteca ainda não abriu e não vai abrir tão cedo. Efetivamente foi um ano catastrófico. Eu, pessoalmente, não me queixo nada porque foi igual para todos, aconteceu a todos e estamos todos no mesmo barco. Reconheço que em muitos camaradas dos (vários) sectores tem havido apoio, interajuda, troca de experiências, em respeito à interpretação da Lei, como devemos fazer, desde a restauração, bares e eventos tem havido uma união entre os operadores para tentarmos juntos sair deste confinamento. Foi um ano dramático, está a ser um ano dramático e provavelmente o pior ainda está para vir nos próximos meses…

PA – Pois, infelizmente deve estar (para vir…). Ia de qualquer forma voltar um bocadinho antes e queria tentar perceber qual a tua opinião da noite de Coimbra antes do COVID, quais eram as qualidades e as desvantagens ou as coisas más …

JG – Ora bem, as qualidades, foi que efetivamente nos últimos tempos tem havido mais oferta variada e não mais do mesmo, têm aparecido alguns nichos. Isso era uma coisa engraçada que estava a acontecer, com nichos alternativos que têm começado a aparecer lentamente, maior qualidade de serviços e maior qualidade de produtos, nomeadamente mostrarem cervejas artesanais e vinhos, etc., estava a haver um incremento de qualidade e diversidade.

Continuava a haver um problema que… talvez seja um pouco difícil contextualizar rapidamente, mas ainda sofríamos um bocado o trauma da troika. O que a troika levou tal como agora, vai-se passar exatamente o mesmo agora e foi há bem pouco tempo.

De 2011 a 2014 houve uma redução abrupta do rendimento das famílias, logo do consumo dos estudantes. O que é que isso levou?, levou às festas em casa, os botellons, consumo de bebidas alcoólicas sem qualidade, de alto grau alcoólico para uma experiência mais rápida e mais intensa. Levou a concentrar a noite, dos estudantes, num só dia por semana que é a quinta-feira. Portanto, isso foram consequências da crise económica provocada pela troika. E efetivamente isso alterou o panorama da noite de Coimbra. A malta mais jovem, os estudantes, já saíam de casa em muito bom estado, chamemos-lhe assim, já às 3 da manhã, para estarem uma hora ou uma hora e tal numa discoteca, já pouco consumiam, os consumos eram mínimos, os problemas associados a esse consumo de álcool agressivo apareciam mais depressa. Portanto, efetivamente, a troika trouxe uma mudança à noite de Coimbra que estava quase, quase a passar e aí era a grande desvantagem da noite de Coimbra que, efetivamente, era uma noite muito curta, eram cerca de 2 horas de ponta, focada basicamente num dia: à quinta-feira, embora também houvesse um pouco à terça, portanto a segunda e a quarta desapareciam do calendário, terça muito pequenina … quinta-feira acabávamos por ter na zona da Praça, Sé Velha e arredores, acabávamos por ter um pico de 7, 8 mil pessoas, com um consumo (feito) em 2, 3 horas. Isso alterava, alterou… era a parte negativa da noite de Coimbra e já não havia muita qualidade e havia insegurança. Eu falo efetivamente de insegurança na noite de Coimbra e a insegurança não é dentro dos espaços, a insegurança é na rua. O ruído é na rua, a destruição é na rua. Portanto, isto é um pouco difícil de compreender pelas pessoas… é o problema do ovo ou da galinha. Há problema de insegurança de ruído e destruição na rua por causa das discotecas. Então, mas se é na rua não é por causa das discotecas… não estão dentro dos espaços noturnos, dos bares ou discotecas. Efetivamente os problemas de ruído, de insegurança, de excessos alcoólicos e destruição acontecem na rua porque as pessoas não estão nos espaços. Isso é uma coisa que as entidades oficiais, a Câmara Municipal, a Proteção Civil, a PSP, e a própria comunidade académica deviam fazer um esforço no sentido de perceber que efetivamente quando as pessoas estão dentro dos espaços noturnos é que podemos dar essas garantias aos jovens para os deixar mais descansados e os próprios pais ou familiares mais descansados, e isso é um grande problema da noite de Coimbra é que as pessoas não estavam dentro dos espaços.

PA – Ok. Continuando um bocadinho nesse ponto, alterando aqui a minha ordem… mas tu achas que no futuro, depois desta pandemia Covid passar, seja quando isso acontecer, devia haver medidas para proibir ou limitar o botellon e fenómenos desse género? Como acontece em Espanha, pelo menos em algumas cidades….

JG – Talvez seja uma das boas heranças que o Covid vai deixar, neste momento é proibido o consumo de álcool na rua, a venda para consumo na rua… creio que será uma boa herança, se continuar, que o Covid nos vai deixar. O consumo de álcool na rua traz problemas de ruído, de insegurança, de destruição e da qualidade da saúde dos jovens, por causa do tipo de consumo que fazem. Para além de…, na insegurança temos de chamar um ponto essencial: do consumo e tráfico de estupefacientes que acontece, obviamente, com muito mais facilidade, do que num espaço controlado com seguranças, câmaras, etc. Portanto, espero bem que no pós Covid um dos ensinamentos que se apreenda é que as pessoas na rua não consumam, mas sim dentro dos espaços. E que essa proibição do álcool, pelo menos a partir de certa hora, na rua e em espaços ao ar livre, se mantenha. Não é só por interesse comercial (óbvio que também há um interesse comercial aqui), mas é só ver que quase todos os incidentes que existem acontecem por causa disso e não por causa do que acontece nas discotecas.

Sem querer chamar… mas chamando a atenção ao mesmo tempo, ouvimos falar que houve um tiro algures, o tiro foi porque essa pessoa não conseguiu entrar dentro da discoteca… e foi à porta da discoteca. O problema estava na rua, não estava dentro da discoteca. Acho que é um exemplo paradigmático de que houve um tiro e uns seguranças que correram risco de vida, mas o problema estava na rua e eles fizeram o seu papel que foi impedir que o prolema fosse para dentro. Onde é que as pessoas estão seguras? Na rua ou lá dentro? É pergunta que deixo…

PA – Voltando um bocadinho… já mencionaste, mas podemos falar um bocadinho mais especificamente – o Covid afetou muito significativamente os teus negócios: tanto Aqui Base Tango, como aqui no Açúcar…

JG — Na empresa de eventos…

PA – E em que medida é que afectou?

JG – Ora bem, estamos a falar de quando veio o confinamento, quando foi do confinamento, afetou em 100%, praticamente, a não ser na parte da restauração em que tivemos um acréscimo óbvio e lógico de entregas em casa e vendas por take away, que permitiu algum balão de oxigénio a este sector de negócio, durante o confinamento afectou a 100%. Logo a seguir ao [1.º] confinamento tivemos que nos reinventar, adaptar em todos os aspectos… portanto fizemos concertos, fizemos tardes simbólicas, o espetáculo dos 730 anos da Universidade de Coimbra que, enfim, se não fosse o Covid teriam outra dimensão, teriam outro formato. O Aqui Base Tango reabriu logo a 18 de outubro quando abriram os cafés com horários diferentes, com… portanto afectou na quebra de vendas, na obrigação de mudança de paradigma e, associado a isso, custos de investimento porque tivemos que alterar coisas. Tivemos que fazer obras, tivemos que dar formação ao pessoal porque estamos a trabalhar noutra área, que era mais de cafetaria e também de restauração, nomeadamente no Aqui Base Tango eles estavam habituados a outro registo. Tivemos que investir e perder dinheiro experimentando qual era a reação das pessoas, se era nas esplanadas, se era dentro de casa, se era dentro da nossa casa, se queriam eventos à noite, se queriam ao final da tarde. Tivemos que cometer muitos erros, muitas decisões que custaram dinheiro até acertarmos o formato, portanto eu diria que afetou muito, muito, muito, até em termos de paradigma, em termos de faturação e infelizmente em termos de postos de trabalho porque alguns foram eliminados.

PA – Não sei as tuas empresas tiveram de recorrer ao layoff

JG – Não, não recorremos a layoff, por uma simples razão: na parte da restauração não fazia muito sentido porque efetivamente o layoff seria parcial e nós com o aumento das vendas para casa ficámos bem. Na parte do Aqui Base Tango não recorremos porque eu estava convencido duraria 1 mês. Acabou por durar 2 meses, mas quando me apercebi que ia durar 2 meses já não valia a pena. Portanto não recorremos a layoff em nenhuma situação. Se voltasse atrás, no caso do Aqui Base Tango recorreria logo em março e teria aquele apoio durante 2 meses. Eu pensei que seria só 1 mês, 1 mês e pouco, e como tal conseguiríamos aguentar esse embate. Foi mais um bocadinho mas estamos cá na mesma!

PA – Há pouco em off estavas a falar do factor de, mesmo estando reaberto, as pessoas têm medo, ou seja, existe um conjunto de pessoas ainda bastante renitente, não de eventos (se calhar também um bocadinho), mas da restauração…

JG – Sim, existe um confinamento psicológico, eu não diria que é medo – nalguns é medo, noutros é pânico, noutros é cautela – da intensidade efetivamente com que lidam com a situação mas há um confinamento psicológico, que já existia antes do Governo decretar – no dia 19 de março já estavam as casas vazias, antes do Governo… eu acho que o Governo reagiu aquilo que já se estava a passar na sociedade. Nós estávamos, nós portugueses, estávamos assustados com o que se estava a passar em Espanha, em Itália, e nós uns bons dias antes do dia 19 de março, que foi o dia do estado de emergência, já tínhamos DJ’s a desmarcar, eventos a serem desmarcados, as pessoas a não aparecem, a não saírem à noite. Quando o Governo começou a fazer o desconfinamento, as pessoas ficaram confinadas psicologicamente, e ainda estão, ainda estão confinadas psicologicamente e efetivamente também houve associados – é preciso não esquecer isso – além do confinamento psicológico, houve uma perda de rendimentos, menos poder de compra. Portanto, se aliarmos as 2 coisas, toda a gente perdeu volume de negócio e clientes, ponto final. Já agora, não tem piada nenhuma mas acaba…, muita gente acaba por se esquecer disso, não só perdemos clientes como perdemos fornecedores.

PA – Pois, não me lembrava dessa parte, sim…

JG – É que as pessoas esquecem-se… Perdi fornecedores, fornecedores que fecharam…

PA – Não me lembrava disso, sim…

JG – Que nos obrigou também a reinventar em certos produtos. Não vou obviamente a estar aqui a explicar, mas uma certa gama de produtos que comprávamos ali e ele fechou. Entrou em layoff e ainda não reabriu e se calhar provavelmente não vai reabrir e depois eu vou procurar outros fornecedores. Eu estou a falar de coisas tão simples como o nosso fornecedor das toalhas das mesas, não é, que tínhamos papel, passámos para pano, quando foi a reabertura pelas regras do Covid seria o papel descartável. Nós tínhamos o papel, com aquela gramagem, todas bonitinhas, o que nós queríamos para pôr aqui nas mesas, à 15 dias que não fornece nada. Porque, não sabemos bem se teve um surto de Covid ou não, ou outra coisa, mas fornecedor de pão, fornecedor de carnes, coisas específicas, portanto não só perdemos clientes como perdemos fornecedores e é uma tristeza – passe a publicidade – mas ainda hoje fui à Makro e tem prateleiras vazias porque o produto não chega.

PA – Não tinha pensado nessa dimensão.

JG – E isso acontece, tem acontecido sempre de maio até agora, ou num sector ou noutro, não estou a falar do papel higiénico que desapareceu, ou desapareceu o álcool, ou máscaras, ou as luvas, isso foi geral, mas de certo tipo de produtos terem efetivamente prateleiras vazias. E eu telefonar ao gestor de conta do grossista: Então como é que é? Eram para entregar hoje – aconteceu este telefonema – eram para entregar hoje não, não entregaram. Também já não devem entregar amanhã. Conte só para a semana, não arranjo outra solução. Portanto, não é um fornecedor nosso, é um fornecedor de um grossista, mas a cadeia de distribuição, a cadeira de produção foi destruída, não só no cliente final como nos fornecimentos intermédios, e isso tem-nos atrapalhado também bastante o negócio.

PA – Bem pensado…

JG – Isto não é bem pensado, é a realidade…

PA – Bem visto. Não é bem pensado, não tinha pensado. Claro que vocês é que sentem isso, mas eu não tinha pensado nessa dimensão.

JG – E o layoff foi ótimo para quem recorreu, mas a verdade é que, interrompeu o processo produtivo, suspendeu o processo produtivo. Voltando à empresa de eventos, dos poucos eventos que conseguimos fazer – ainda assim foram uma benção – houve fornecedores que eu dizia assim: eh pá, preciso de um determinado equipamento. Mas é o quê? É para isto! Eu tenho 10 trabalhadores em layoff, não tirá-los para te fornecer isso. Para fornecer isso vais precisar durante uma semana, tenho de os tirar do layoff, depois não os consigo voltar a pô-los, portanto não há! E levei 4, 5, 6 negas de fornecedores. Portanto, se é verdade que o layoff deu muito jeito a muitas famílias, salvou empresas, está a salvar empresas, também houve um lado que eu até questionei a partir de agosto – e efetivamente ele depois foi sendo reduzido – até que ponto não estaria a destruir o própria economia o layoff. Não permitia ela rodar… estavam areias na engrenagem, completamente. E houve negócios que eu deixei de fazer porque não tinha quem fornecesse. Só por esse negócio não sai do layoff. E deixaram-se fazer coisas, entre outras.

PA – E pensando no futuro, que perspetivas é que tens para o futuro?

JG – O futuro é 15 dias…

PA – É? A curto prazo, a médio prazo?

JG – 15 em 15 dias. Neste momento estamos a viver… nós já vamos na 3.ª… 5.ª alteração neste ramo, via resolução de Conselho de Ministros que é de 15 em 15 dias. Já tivemos não só alterações à lei como alterações à alteração da lei. Portanto, cada vez que reúne o Conselho de Ministros, de 15 em 15 dias, estamos sempre com um grande nó a ver se vai haver alguma alteração ao não. Creio que agora já estaremos num modelo estabilizado, a não ser um surto, um pico de surto num ou noutro local que possa haver uma alteração. Espero bem que agora já estejamos num modelo que nos leve até ao fim do Covid, pronto. Mas, efetivamente, até agora nós tivemos alterações de horários e de interpretações de horários 4 vezes de maio até agora. Estamos a falar de um caso tão simples quanto isso, que não só aconteceu na Câmara de Coimbra como em muitos municípios do país, não afetam a restauração e os cafés mas afetam tudo o resto. No estado de contingência aqui de setembro as Câmaras ficaram de decidir se encerravam os espaços às 8… entre as 8 e as 11 da noite. Havia entendimento de juristas que diziam que, por definição, se a Câmara não disser nada é às 11 da noite, e havia entendimento de juristas que não, por definição, se a Câmara não disser nada é às 8 da noite. Então todas as Câmaras precipitaram-se, e bem, isto é às 11 da noite, mas falta-nos a aprovação da DGS e da PSP. Pelo vistos não era preciso, mas umas Câmaras… então afinal era preciso mas se é preciso onde é que ela está? No caso de Coimbra demorou cerca de 17 dias, ou 13 dias, a vir a aprovação da DGS e da PSP. Portanto, do dia 15 ao dia 28 a Câmara diz: é 11 da noite mas ainda nos falta aprovação, e agora cabe aos juristas interpretarem se, por defeito, é 11 da noite ou não. Tudo bem, eu acredito que para um cabeleireiro seja tudo pacífico, ou para uma casa de fotocópias seja pacífico, e para um centro comercial? No dia 15 à noite está: nós amanhã abrimos até às 8 da noite ou às 11? Como é que nós escalamos o pessoal? E estas indefinições…

PA – Um conjunto de gestões que não são feitas…

JG – Que não é culpa de ninguém, porque ninguém estava preparado para isto e ainda continua-se a legislar um bocadinho à pressa. Normalmente a produção legislativa é mais lenta, aqui tem de ser um bocado à pressa, com erros, não sei quê! O certo é que centros comerciais que trabalhavam até às 11 da noite (ou trabalham até às 11 da noite) estiveram num limbo legal do dia 15 ao dia 28 de setembro, e isso não pode acontecer na economia, porque nada disto altera a progressão da pandemia. Esta indefinição se é às 11 ou se é às 8, se escalaram os funcionários para o horários noturnos, se abre a loja, se não abre a loja, não interfere nos números da pandemia, mas interfere na destruição da economia. E isso tem vindo a acontecer. É uma pena, para não dizer que é trágico.

PA – E pensando mais no futuro, assim que acabar esta pandemia – esperemos que seja rápido – o que é que achas que poderia ser feito para melhorar a vida noturna, nesta caso em Coimbra…

JG – Para além daquilo que eu já referi, do álcool, do consumo e bebida de álcool na rua, deveria ser uma coisa para ficar porque efetivamente pode trazer qualidade à noite de Coimbra, eu acho que além disso é um bocado futurologia, porque não sabemos quais as empresas que vão sobreviver, qual é a oferta que vai sobreviver no fim disto tudo. Há um novo spot em Coimbra que entretanto vai abrir – que se chama Docas – há outro spot que se chama mercado D. Pedro V (também foi adjudicado durante o Covid, não é? As concessões foram atribuídas. Há novos spots, eu creio que vai haver uma reorganização da noite de Coimbra, quer na oferta, quer geograficamente. O que é que isso vai dar? É completa futurologia porque há muitos vetores a variar ao mesmo tempo, muito vetores a variar ao mesmo tempo. Não faço a mínima ideia. Não sei se há comportamentos de, por exemplo, consumo em festas privadas se veio para ficar, não sei, é muito cedo, muito cedo mesmo para perceber. Agora nada vai ficar igual, isso é uma certeza absoluta, nada vai ficar igual ao que estava.

PA – Pois, muitos empresários e muitas empresas provavelmente vão desaparecer ao longo deste processo. Logo se vê se vão surgir novas ou não…

JG – Sim, isso sim. Agora se os espaços vão desaparecer ou não é outra questão… Eu, voltando aqui um bocado atrás, nós estamos aqui num semestre completamente atípico e que queria chamar a atenção de toda a gente, dos operadores, das autoridades, dos clientes, que chegaram os Erasmus. Os Erasmus vêm de diversos países europeus, com experiências em relação ao Covid completamente díspares. Se vieram da Suécia têm uma forma de pensar, se vieram de Espanha têm uma forma de pensar, ser vieram de Itália, o norte de Itália tem uma forma de pensar, o sul de Itália tem outra forma de pensar, a Inglaterra diferentes, portanto efetivamente eu não sei os números mas haverá 3, 4 mil alunos de Erasmus, mais os alunos brasileiros em todos os graus de ensino da Universidade, estamos a falar de uma comunidade – Coimbra é muito cosmopolita nesse aspeto – que tem vários entendimentos, ou… de forma diferente com a influência do país de origem, não é, relativamente ao Covid. E aqui com algum ar de preocupação eu digo que ao fim-de-semana eles não visitar os pais nem os avós. E os nossos, os portugueses, vão, ou vão para casa à noite ter com os pais ou com os avós, ou ao fim-de-semana, ou vão 1 vez por mês. E efetivamente nota-se uma diferença abismal no comportamento na noite, não é? Efetivamente, no desconhecimento da lei – atenção, até os portugueses, muito mais aqueles que aterraram há uma semana saberão a lei em Portugal: admissão até à meia-noite, o encerramento ao domingo, … aqui efetivamente esta semana, e a próxima, está-nos a trazer um manancial de problemas com que temos de lidar – vêm de países onde não é obrigatório usar máscara – aqui é preciso pôr máscara. Como [questionam eles]? Ou então vêm de países em que efetivamente não há ajuntamento, não há limite de pessoas no ajuntamento de pessoas e ligam para o restaurante: queremos marcar um evento para 20 pessoas. Não podemos! Não podem porquê? Por causa da lei! Mas que lei é essa? Até os portugueses, quando mais quem vem do estrangeiro. E depois, efetivamente como não têm essa pressão do grupo de risco etário de ir ter com os pais ou com os avós, há um relaxe maior, são jovens, assintomáticos, como um taxa de mortalidade quase 0, acreditam de uma forma mais displicente do que os portugueses, os jovens portugueses, porque efetivamente têm a pressão depois do familiar: olha lá, tu vais à festa, pensa no teu pai, nos teus avós, vais estar com eles daqui as 15 dias, e isso traz umas dinâmicas um bocado difíceis de controlar, mesmo. Porque efetivamente esta diversidade cultural e de experiência do último semestre é completamente diferente de caso para caso, de país para país, de região do país para região do país, não é? Traz-nos muita… exige-nos muita agilidade em lidar com as situações, porque efetivamente não é normal… por outro lado é muito normal que um grupo de 4 portugueses entre aqui e que ponha logo a máscara, não temos de chamar a atenção. Se vierem 4 suecos – que também vêm a esta casa – por exemplo, não lhes passa pela cabeça que têm de pôr máscara, e entram e nós temos de ir atrás: olhe, desculpe, tem de pôr máscara. E os clientes do lado logo a olhar: então porque é que estes estão sem máscara? Isto tem-nos trazido algumas complicações até normalizar os comportamentos e não sei se iremos controlar totalmente, no próximo mês, ou… Também é uma experiência diferente.

PA – Estava aqui a pensar nalgumas coisas, nomeadamente o papel da Universidade na recepção dos Erasmus poder informar algumas coisas…

JG — Eu acho que devia, eu acho que a Universidade e o Politécnico, todos os agentes de ensino deviam ter uma postura não passiva, digamos assim. A verdade é que também, desde que foi a aceitação dos Erasmus até agora já houve uma alteração da lei. Portanto, qualquer formação que tivessem dado já estaria desatualizada, não é? Provavelmente eles não consomem noticiários portugueses, claro que não, não seguem a atualidade portuguesa, não fazem se calhar a mínima ideia que estamos num novo pico, ou numa nova vaga, quer dizer é um mundo diferente onde os estudantes portugueses e nacionais estão. E é muito disso… tem de ser no dia a dia, tem de ser no dia a dia a aprendizagem. Não é por acaso que efetivamente, creio que foi há 15 dias que a PSP interveio uma festa numa casa com mais de 100 pessoas. Mas estamos a falar de pessoas com nacionalidades que vinham de países em que os bares não fecharam. Portanto, para eles neste verão os bares não fecharam e havia discotecas abertas. Portanto eles aterraram num país em que, de repente, tinha assim umas regras… e eles adaptaram-se. Vamos fazer uma festa, não é? Não acredito que alguém tenha lido que neste momento está em vigor a resolução do Conselho de Ministros 70/A-2020 de 15 de setembro, que alguém tenha lido que não são permitidas aglomerações acima de 10 pessoas. A resolução do Conselho de Ministros 99% dos portugueses não leram, não é? Ainda na terça-feira ligaram-me, atendi o telefone, e perguntaram se tinha lugar para 11 e eu disse que sim, mas olhe tem de decidir rápido para eu manter a distância de segurança. Ah, sim, nós em 2 minutos já ligamos. Mal desligou eu entrei assim em pânico… mas acabei de aceitar 11 pessoas! E fiquei assim, eu não posso aceitar 11 pessoas, eu aceitei com naturalidade, nem me lembrei do limite, não é? Estava com os 20, há poucos dias tinham passado para 10, eu aceitei. Passado um minuto ligaram, sim senhor é para confirmar que somos 9. E eu, uff! Senão tinha de excluir um do grupo. Não só ela com naturalidade, a cliente, ligou a dizer 11 e eu com naturalidade, sem maldade, aceite os 11. Por sorte vieram 9.

PA – Pessoalmente não tenho aqui mais nenhuma questão, mas não sei se queres dizer algumas palavras finais, se queres falar de alguma outra coisa…

JG – Eu sei que é uma mensagem em vão, em vão, não quer dizer que se eu penso assim, se acho que é melhor assim em termos de saúde pública, não quer dizer que eu não a dê na mesma, mas é uma opinião em vão. Efetivamente o horário dos estabelecimentos de restauração e similares – bares, cafetarias, etc. – com o último acesso à meia-noite e encerramento à 1 da manhã vai trazer um mês, este próximo mês de outubro em Coimbra, suponho eu, algo de não muito agradável para a cidade. Estamos a falar em que efetivamente temos 20 mil estudantes no auge da idade, jovens, não é, efetivamente mortinhos por se divertirem, dos quais 5 mil pela primeira vez no meio universitário – 5 ou até 7 mil se não estou em erro no meio universitário – e efetivamente esta restrição de horários vai levar inevitavelmente a festas… e também com a restrição com o consumo de álcool na rua, vai levar inevitavelmente a festas em casa. Festas em casa uns dos outros onde não há… traz outro amigo também, como diria o Zeca Afonso, vai trazendo amigo, vai trazendo amigo, não são coabitantes, não vivem dentro do mesmo… não se conhecem, não há distanciamento, não há higienização, efetivamente vai trazer, talvez, um problema de saúde pública, mas vai trazer de certeza muito ruído aos bairros urbanos, os bairros habitacionais da cidade e eu acho que não vai haver carros de polícia suficientes para todas as chamadas que os vizinhos vão fazer… Se no 5.º esquerdo estão 20 miúdos a fazer – basta 10, mesmo dentro da lei –, mesmo dentro da lei 10 estudantes estão a fazer um forró e não se calam vai acontecer isto naquela rua, noutro bairro, noutro bairro… já acontecia, atenção. Agora que o problema vai-se multiplicar por 10 ou 20 ou 30 e efetivamente quer pela questão do sossego dos habitantes nas suas casas, quer pela questão sanitária, da transmissão do vírus, acho que não seria pior – para o meu caso seria melhor – o alargamento pelo menos até às 2 da manhã do encerramento dos cafés, chamemos-lhe assim. As discotecas não há, bem pode haver tão cedo, os bares a beber um copo de pé não existem, mas efetivamente com as pessoas sentadas a beber um copo, situação com máscara, distanciamento e 1,5m entre grupos coabitantes, higienização, os funcionários com higienização em todos os procedimentos, estarão as pessoas, em meu entender, muito mais seguras e farão a casa dos seus pais, dos seus avós, muito mais seguras se estiverem nestes espaços controlados e que sigam as regras do Clean & Safe, que o Turismo de Portugal, definiu do que em festas privadas. Portanto, esse alargamento até às 2 da manhã, com acesso na mesma até à meia noite, já diria para que, digamos, provavelmente 80% da população estudantil já se sentisse satisfeita e tivesse aquela oferta para poder regressar a casa em segurança e silêncio. Eu creio que é difícil explicar isto a quem não vive no meio, mas uma coisa é assim; se fecharem os bares os problemas aumentam, nos vossos vizinhos do lado e nas ruas. E o contrário é absolutamente verdade.

PA – Mesmo a questão da saúde também…

JG – A questão da saúde e do descanso. Quem tem de descansar e vai trabalhar no outro dia. Não tenho dúvidas nenhumas disso. Agora não me parece que socialmente seja aceite, ou que as pessoas consigam ver nesta perspetiva. Não conseguem ver rapidamente nessa perspetiva: não, fecham-se os bares, fecham-se os cafés à meia noite e vai tudo para casa. Não vão, …

PA – Não é verdade…

JG — … não vão para casa dormir, porque não vão. Por mais que queiram isso não vai acontecer, as pessoas esquecem-se de quando eram jovens: ah, se calhar era à meia noite! Sim, mas não estamos em 1970, não estamos em 1960 nem em 1990, estamos 2020, os clientes alteraram-se – não sei se melhores, se são piores – o que é certo é que os jovens efetivamente os jovens não vão para casa à meia noite ou 1 da manhã. Ainda por cima quando parte não vão ter aulas presenciais de manhã.

PA – Exato…

JG – Portanto, os bairros dormitório, as zonas dormitório, vão sofrer um bocadinho este semestre e podia-se antecipar isso. Mas agora já não, creio que é tarde demais, não vão alargar o horário quando estamos a crescer a vaga. Mas logo que possível seria a primeira medida a tomar e seria uma medida sanitária, mesmo.

JG – Como falei há pouco nós podíamos fazer um relatório nesse sentido, propor a alguém que no futuro se calhar seria uma boa ideia, nesse sentido de alargar um bocadinho o horário dos estabelecimentos que cumprem normas, e continuando eles a cumprir de forma a evitar esses ajuntamentos

JG – Esse aglomerado espontâneo que efetivamente… Tal como agora a nova legislação proibiu o consumo ao balcão nas esplanadas a partir das 8 da noite, e a maior parte das pessoas diz: então mas porque é que se ao ar livre é que se está bem, é que o vírus se propaga menos, então porque é que proíbem o consumo nas esplanadas e é permitido dentro dos espaços? Querem meter as pessoas dentro dos espaços? Pode parecer um contrassenso mas não é, estranhamente o Governo legislou muito bem, no meu entender. Porquê? A esplanada é um caos controlado, mas é um caos. Então uma esplanada que é vizinha de outra esplanada, e quando temos 3, 4, 5 esplanadas aquilo é controlado, por nós ou por outros, mas é um caos, um bocadinho, porque se está uma a passear o cão vai e senta-se na mesa dos outros. Não houve desinfeção de cadeira, não sabemos se a mesa… pega na cadeira do outro e vem… posso tirar? Sim, senhor. O controlo dentro as casas é muito superior ao das esplanadas. Muito, muito superior. Qualquer operador que tenha um espaço interior e um espaço exterior sabe perfeitamente que controla mais facilmente no espaço interior do que no espaço exterior. Pode parecer um contrassenso de proibir o consumo de álcool nas esplanadas e não no interior, a verdade é que o eu acho que o Governo não vai nesse sentido, porque por as pessoas dentro dos espaços significa ter mais controle sobre os grupos de jovens, nomeadamente estamos a falar do grupo dos jovens. E então mesmo aqueles do secundário que estão a voltar às aulas é um controle… a esplanada é um caos controlado, o interior dos espaços não o é. Só se efetivamente o operador quiser, por que não é. Numa esplanada passam os amigos, sentam-se e quando a gente dá conta já estão sentados, não houve procedimentos, não houve nada. Dentro é muito mais difícil de isso acontecer. A pessoa vai ter de entrar, estar à procura de alguém, e é logo atendido porque segundo as normas da DGS com a AHRESP é logo indicado onde é que se senta, o local é preparado, e isso acontece nos espaços. Quem frequente sabe isso. Nas esplanadas não, nas esplanadas isso não acontece. Portanto, efetivamente essa mudança de pôr as pessoas a consumir álcool de fora para dentro do espaço, no meu entender, é positivo no combate à pandemia, embora a priori possa não parecer.

PA – Certo, tens razão! Não sei se queres dizer mais alguma coisa? Da nossa parte acho que está tudo…

JG – Sim, quero dizer mais uma coisa. Efetivamente eu falei de três sectores: da produção de eventos, bares/discotecas e da restauração. Eu creio que o menos atingido é claramente o sector da restauração que paulatinamente está a recuperar, e até há casos de sucesso que conseguiram – por via das esplanadas – até rentabilizar mais o seu negócio e ter vendas superiores até às do passado. Há aqui dois sectores menosprezados economicamente que não têm nenhum tipo de apoio suplementar, e que têm atividades proibidas. Atividades proibidas, não estamos a falar de… as discotecas estão proibidas, o modelo de negócio da noite, de se poder beber um copo, dançar com música, está proibido. E muito bem, mas a verdade é que está proibido. O nosso modelo de negócio está proibido. A compensação além do layoff não é nenhuma, e é igual à empresa têxtil que já pode operar, é igual ao supermercado que já pode operar, não é? Portanto nós estamos proibidos sem vista à vista Os eventos, não estando proibidos, têm umas regras e uma lotação que não os torna rentáveis economicamente com a venda de bilhetes. Não há nenhuma venda de bilhetes que – com a lotação que agora é permitida – que possa pagar todos os custos. Portanto, não se fazem eventos não é porque estão proibidos, é porque não são rentáveis… Portanto nós estamos a falar de dezenas, dezenas, milhares de empresas e muito mais centenas de postos de trabalho. Empresas de eventos, de casamentos, concertos musicais, todas discotecas de norte a sul do país… vejam os milhares de empresas que são e as dezenas, centenas de milhares de postos de trabalho que estão proibidos, literalmente proibidos. E não há nenhum apoio especial para este sector, que é o único que está proibido, que é o único sector – o das discotecas – que está proibido, que eu saiba, as discotecas ou outros sectores de diversão, estou a falar basicamente da mesma área. Proibidos, não há nenhum apoio específico para isto, perfeitamente abandonados, e eu acho que todos precisam de dinheiro, todos os sectores estão mal, não é, mas acho que podia haver um “carinho” por aqueles que estão proibidos por lei. E isso faz falta.

PA – Sim, parece-me bastante razoável…

JG – A sapataria está à rasca mas pode abrir. Não tem clientes, ok, mas pode abrir. Quem tem um parque de diversões não pode abrir. A Broadway que vive dos velhotes que todas as tardes vão lá dançar à quarta, sexta, sábado e domingo, não pode abrir. Então e aquelas pessoas não são gente?

PA – Sim, claro que são!

JG – Mas o layoff! Um terço deixam de ganhar, um terço paga o Estado e um terço paga a entidade patronal. Portanto a entidade patronal tem comportar um terço de uma atividade proibida, não é, e o trabalhador está a perder um terço porque está proibido de ir trabalhar. Como é que é? Bem fez o NB que fez um despedimento colectivo e chutou o problema para o Estado: resolve com o subsídio de emprego. Nós quando reabrirmos contratamos outra vez. Agora se toda a gente fizer um despedimento colectivo no sector o Estado fica com um problema na Segurança Social, o Centro de Emprego nem imagina bem, nem imagina bem, sendo que que há muitos, nomeadamente DJ’s, músicos, performer's e não sei quê, que são trabalhadores independentes. Não têm ordenado, nem podem ter porque a entidade patronal vai variando de fim-de-semana para fim-de-semana. É muito grave, muito grave…

PA – Sim, é um bom repto da tua parte… pode ser que se faça alguma coisa…

JG – Efetivamente um drama, atividade proibida. Temporariamente, não é ilegalizada!

PA – Sim, sim, proibida tendo em conta as circunstâncias…

JG – Agora claro que sim. Podes mudar de… já houve uma mudança de lei que equivale a quem está naquele CAE de estabelecimento de bebidas com pista de dança pode operar no CAE de café sem nenhuma mudança de alvará nem do CAE perante as Finanças, desde que — como está na resolução do Conselho de Ministros – inutilizem a pista de dança e trabalhem segundo as regras de café. Não estou a ver 300 sexagenários a irem para a Broadway para irem beber café na pista.

PA – Obviamente que não…

JG — E os senhores da Broadway não são condignos como os outros quaisquer? Ou não são? Proibidos de trabalhar e sem nenhum apoio. Nós no Base Tango ainda conseguimos dar a volta de alguma forma…

PA – Sim, consegues…

JG – Mas mesmo assim só faturamos 6 horas por semana quando antes faturávamos na ordem das 28. O pessoal faturava números distantes… Nós faturamos 3 horas à sexta e 3 horas ao sábado. Dantes faturávamos 5 horas vezes 5 dias. Portanto, 25 horas no mínimo, com mais gentes. Agora estamos a faturas 6 horas em vez de 25 e com uma lotação de 50%.

PA – É só para sobreviver…

JG – Nem isso, é ganhar noutro lado para pagar aqui. Temos prejuízo aqui. É verdade!

PA – Obrigado.