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Incêndios 2017 – Reflexões 2 anos depois, por Célia Franco (Coordenadora da Unidade de Saúde Mental Comunitária Pinhal Interior Norte)

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A exposição aos incêndios de 2017, na região centro do país, pode traduzir-se, no caso a caso, em determinantes de vulnerabilidade na população, podendo nos mais jovens conduzir, por vezes, a comportamentos de risco. O artigo da Dr.ª Célia Franco, Coordenadora da Unidade de Saúde Mental Comunitária Pinhal Interior Norte, reflete sobre a importância da prevenção nestas situações e sobre o trabalho em rede como resposta.

 

Incêndios 2017 – Reflexões 2 anos depois

Célia Franco, Médica Psiquiatra
Coordenadora da Unidade de Saúde Mental Comunitária Pinhal Interior Norte

 

No dia 15 de outubro de 2017 os concelhos de Oliveira do Hospital, Tábua e Arganil, foram fustigados por um grave incêndio, tendo ardido mais de 90% da área florestal. Houve um total de 19 mortos e várias dezenas de queimados graves. A Unidade de Saúde Mental Comunitária Pinhal Interior Norte (USMC PIN), a funcionar nestes 3 concelhos desde 2015, esteve no terreno desde o dia 16 de outubro, para responder às necessidades decorrentes da situação de catástrofe vivida. A intervenção decorreu em articulação com as Unidades de Cuidados de Saúde Primários, as equipas das Câmaras Municipais, Juntas de Freguesias, Segurança Social, Técnicos das IPSS’s, e estabelecimentos escolares. Organizaram-se equipas multidisciplinares com psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, das várias entidades, que visitaram todas as freguesias do concelho, com objetivo de avaliar e triar as dificuldades, bem como, a necessidade de intervenção psicológica e/ou psiquiátrica, ouvir e dar suporte, informar e orientar para os recursos disponíveis. Nos primeiros 6 meses foram referenciados para apoio psicológico e psiquiátrico um total de 563 pessoas.

As crianças e jovens foram alvo de particular intervenção, no âmbito familiar e escolar. Em Oliveira do Hospital as escolas fecharam na primeira semana após o incêndio. Neste período a USMC PIN reuniu com professores, funcionários e psicólogos da escola, sensibilizando para a necessidade de todos estarem atentos às dificuldades e problemas que poderiam surgir e como lidar com estes. Evidenciou-se o facto de as reações das crianças e jovens estarem muito relacionadas com as dos pais, família e adultos com quem lidam. Os psicólogos e professores desenvolveram espaços e momentos na escola que permitiram às crianças expor as dúvidas, dificuldades e angústias, bem como trabalhar os medos. Os psicólogos das escolas passaram a acompanhar 27 jovens referenciados em 2017/18, particularmente por problemas ansiosos e de sono. A evolução destes foi positiva. Em 2018/19 mantiveram acompanhamento.10 crianças tendo terminado no final deste ano letivo. Não se detetaram alterações nos padrões de funcionamento dos jovens, nem se encontraram problemáticas de consumos de substâncias ou de alterações de comportamento atribuíveis à situação de catástrofe.

Consideramos que a intervenção pronta e articulada das estruturas municipais, de saúde e sociais, foi fundamental para uma evolução positiva da população afetada. O facto de ter sido um evento grave que afetou todos, ajudou a criar um sentimento coletivo que terá melhorado a resiliência e a capacidade de adaptação. Os jovens tiveram uma evolução favorável, relacionável com a da sua família e facilitada pelo trabalho cuidadoso dos psicólogos, professores e restante comunidade educativa.

Sabemos, contudo, que o problema não está resolvido. Nos últimos 6 meses começámos a receber doentes adultos com Perturbação de Stress Pós-traumático, especialmente técnicos e elementos de entidades com função de cuidadores. Não foram apoiados precocemente porque entendiam não necessitar. Consideramos que ainda há risco de aparecerem alterações entre as crianças e jovens, pelo que manteremos a vigilância e atenção nos próximos 3 anos.

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